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“De uma perspectiva evolutiva, a gravidez humana é um mistério”. A afirmação é feita por Vincent Lynch, um biólogo da universidade norte-americana de Buffalo e co-autor de um novo estudo sobre o gene receptor de progesterona, crucial para a gravidez.

“Por exemplo, não sabemos por que é que as mulheres entram em trabalho de parto”, afirma Lynch. “A gravidez humana tende a durar mais do que a gravidez em outros mamíferos, se tivermos em consideração factores como o tamanho do corpo. O trabalho de parto nos seres humanos é também mais longo e mais perigoso”.

Com estas premissas em mente, Lynch e sua colega Mirna Marinic, do Departamento de Biologia Organizacional e Anatomia da Universidade de Chicago, começaram a investigar a evolução de um gene que ajuda as mulheres a engravidar: o gene receptor de progesterona. Mas os resultados do estudo só aumentaram o mistério.

Estudos anteriores mostraram que o gene receptor de progesterona passou por uma rápida evolução em seres humanos e alguns cientistas sugeriram que essas rápidas mudanças ocorreram para melhoraram a função do gene. Este processo é designado por selecção positiva. Mas o estudo de Lynch e Marinic – publicado na revista PLOS Genetics – fornece uma conclusão diferente.

Esta nova pesquisa descobriu que, embora o gene receptor de progesterona tenha evoluído rapidamente em seres humanos, não há evidências para apoiar a ideia de que tal aconteceu porque as mudanças foram positivas. Na realidade, afirma Vincent Lynch, a força evolutiva da selecção era tão fraca que o gene acumulou muitas mutações prejudiciais à medida que evoluiu nos seres humanos.

Os resultados vêm de uma análise ao ADN de 115 espécies de mamíferos que incluía uma variedade de primatas, seres humanos modernos e neandertais extintos e lémures, juntamente com espécies de mamíferos não primatas, como elefantes, pandas, leopardos, hipopótamos, peixes-boi e morsas. E Vincent Lynch confessa-se surpreendido com as conclusões.

“Esperávamos algo muito diferente. Este estudo trouxe um mistério que não prevíamos”, afirma. “Pensava que o gene receptor de progesterona teria evoluído para responder melhor à progesterona, para suprimir a inflamação ou contracções para manter a gravidez por mais tempo. Mas parece que é o contrário: na gravidez humana, há uma quantidade incrível de progesterona e, no entanto, o gene é menos bom a fazer o seu trabalho. Gostaria de saber se tal pode predispor a coisas como parto prematuro, o que não é tão comum em outros animais”.

“A gravidez é um evento quotidiano e, no entanto, muitos aspectos desse processo permanecem intrigantes”, airma Mirna Marinic. “Este estudo concentrou-se num ingrediente essencial, a sinalização de progesterona por meio de receptores de progesterona, e os nossos resultados acrescentam mais um passo em direcção a um entendimento mais profundo das especificidades da gravidez humana”.