Muitas mulheres têm o tema do parto já bem definido, mesmo antes de engravidarem, mas haverá algumas mulheres que nunca se detiveram a pensar no assunto. Há quem acredite, sem qualquer dúvida, que só terá um parto normal tal como sempre aconteceu na sua família, e que a cesariana não é mais do que uma ameaça longínqua apenas para resolver alguma complicação (que não terão!). Outras mulheres claramente têm por esta ideia uma repulsa que não lhes permite conceber o parto a não ser por cesariana. E haverá ainda as mulheres que se sentem na área cinzenta, receptivas a todas as opções desde que sintam que fazem sentido. Haverá ainda algumas mulheres que nunca se detiveram a pensar a fundo no assunto, a não ser quando, já grávidas, a barriguinha a crescer as obriga a reflectir sobre isso. Mas o que escolheria se tivesse essa possibilidade? É que, apesar das discussões e colecção de argumentos que se vão fazendo a favor e contra cada uma das vias de parto, o argumento final será se a grávida terá ou não essa capacidade de opção.

 

Mas haverá uma via de parto melhor do que a outra? Diria que, desde que não haja condicionantes, a via de parto melhor é a vaginal. Como costumo dizer, a mulher está dotada, à partida, do equipamento e da “aplicação” que permitem realizar um parto “normal”. Embora o próprio corpo da mulher possa ter variações sobretudo ao nível da bacia – região que alberga e que permitirá a saída do bebé –, a mais tipicamente feminina é a ginecóide, a mais redonda, que oferece à mulher diâmetros mais generosos, facilitando a saída dos bebés. Haverá outras bacias que já poderão oferecer alguma dificuldade à descida do bebé, mas não serão impeditivas, só por si, de um parto normal: falta integrar nesta equação a parte referente ao bebé – o seu tamanho, a forma como se apresenta à bacia e como se moverá para a descida final. Em termos científicos, estamos a falar da compatibilidade feto-pélvica, que não é mais do que o negócio entre as condições físicas da mãe e as do filho, que permitirá que estes acordem entre si – ou não – a utilização da via vaginal para nascer.

Algumas condicionantes

Haverá, no entanto, condições maternas e fetais que, à partida, condicionam esta negociação: pode haver uma doença materna que contra-indique o parto por via vaginal, que pode tratar-se de uma condição pré-existente, como doença cardiovascular ou pulmonar grave, história de descolamento de retina, ou situações que surgiram durante a gravidez, como um herpes genital activo, a condilomatose vulvar ou uma pré-eclâmpsia grave. Relativamente ao feto, se este tem o que chamamos uma má apresentação (por exemplo, de face ou ombro), também é contra-indicado o parto por via baixa. Existem ainda situações inerentes à gravidez, como a placenta prévia, que tornam evidente que o parto não poderá ocorrer a não ser por cesariana, já para não falar nas situações de urgência, como o descolamento de placenta ou o prolapso de cordão, ou ainda a suspeita de que o bebé não estará muito bem e precisa de nascer com alguma rapidez para que se cuide dele.

Estas são situações que constituem razões médicas para que o parto seja por cesariana, retirando assim à mãe a capacidade de decisão. Porém, como dizia no início, só em condições muito particulares a mãe poderá decidir não ter um parto vaginal. Entendendo-se que este é o mais natural e o que acarreta menos complicações para mãe e filho, quando o parto ocorre no sistema público deverá reger-se por protocolos e princípios estabelecidos, que actualmente procuram reduzir as taxas de cesarianas nos serviços de obstetrícia.

Esta é a linha de orientação não só da nossa Direcção-Geral da Saúde, mas também das nossas organizações científicas e ainda de organizações internacionais de controlo da saúde materna e infantil. Por este motivo, para ultrapassar toda esta corrente, será necessário que a grávida apresente uma recusa bem fundamentada ao parto por via baixa, que será apreciada pela direcção do serviço onde terá o seu bebé.

Nos estabelecimentos privados, embora o número baixo de cesarianas constitua também um indicador de qualidade, por se conseguir ter uma relação mais personalizada com as grávidas (mercê de um acompanhamento sempre com o mesmo profissional desde o início), possivelmente os obstetras serão mais permeáveis ao seu desejo, se este passar pela realização de uma cesariana. Porém, todos têm presente que a cesariana é uma cirurgia, associada a morbilidade e com indicações próprias e bem definidas, tal como qualquer outra cirurgia. Assim sendo, será boa prática conversar com a grávida sobre o tema, desmistificar os seus receios relativamente ao parto por via vaginal, expor os riscos para mãe e filho de uma cesariana e lembrá-la que, embora em última instância se esteja a pôr em questão o que se vai fazer ao seu – propriedade dela, grávida – corpo, este é, no entanto, um veículo para trazer outro ser à vida, que também poderia ter o direito de escolher a via mais saudável e segura para esse fim. A grávida pode ser soberana, sim, sobre o que deverá acontecer com o seu corpo, mas deve ser bem esclarecida sobre as opções e as suas implicações.

 Esclarecer receios

As razões que levam com maior frequência as grávidas a solicitar a cesariana são o receio da dor, das consequências do parto sobre o seu aparelho genital – o risco de incontinência ou de disfunção sexual –, o medo da episiotomia (o corte que se faz ocasionalmente no períneo). Mas será que evitar o parto vaginal resolve mesmo estas questões?

Para controlar a dor no trabalho de parto podemos recorrer a várias técnicas, desde as mais naturais e comportamentais até às farmacológicas, pelo que diria que a dor é coisa do passado. Porém, a dor pós-cesariana será mais intensa do que a dor pós-parto vaginal. E a recuperação e reconquista da autonomia mais lentas. A incontinência não será tanto resultado do parto, mas, a ocorrer, prende-se muito mais com a evolução da gravidez e os mecanismos que lhe são inerentes e promovem uma série de acontecimentos “pró-incontinência” – relaxamento do esfíncter uretral, aumento da pressão intra-abdominal, pressão directa sobre a bexiga, esses, sim, são os factores que levam à incontinência.

Quanto à integridade do aparelho genital, a tendência actual é apostar em não fazer a temida episiotomia e, se fica da gravidez algum relaxamento do pavimento pélvico, este poderá ser recuperado. Poderá ocorrer no pós-parto algum desconforto inicial na actividade sexual, que passará com o tempo e que se relaciona com a secura vaginal que pode surgir logo, sem qualquer relação com a via do parto.

 O bem-estar

Finalmente, e pensando no bem-estar do bebé e na sua preparação para a vida no exterior do útero, os mecanismos que ocorrem durante o trabalho de parto preparam- no também para uma maior eficiência a respirar quando chegar ao exterior: como se o avisassem que vai nascer e o preparassem para tal e, em simultâneo, preparam também a mãe para o seu papel seguinte: o de amamentar. De facto, as horas de trabalho de parto levam à libertação de hormonas que concorrem para uma mais eficaz produção de leite materno.

Resumindo, podendo optar, deveria sempre fazê-lo pela via para a qual está naturalmente preparada, para aquela em que, teoricamente, e não precisaria de ajuda de ninguém, que lhe oferece uma rápida recuperação e uma boa preparação para o bebé nascer, ou seja, para o parto por via vaginal. A cesariana, sendo um acto médico, deveria ser realizada apenas quando o médico entender que tem indicação para tal. Porém, se houver motivos fortes que lhe causem perturbação ao considerar a cesariana, converse abertamente com o seu médico assistente e debatam o problema com franqueza, para que se chegue a uma solução confortável para todos.

Marcela Forjaz, Ginecologista e obstetra