Manuel Mendes Silva, autor do livro “A morte explicada aos mais novos”, faz uma apresentação, em exclusivo à Kids Marketeer, do seu livro.

Há uma dúzia de anos o meu neto mais velho, na altura com 6-7 anos, quando programávamos as nossas visitas periódicas a parques, museus, espectáculos, etc, pediu-me para o levar a um cemitério. Senti a importância de lhe explicar apropriadamente esse assunto difícil que é a morte, e de o resolver comigo mesmo antes de lho ensinar. Com o tempo, e conforme iam atingindo a idade adequada, fui levando também os outros netos ao cemitério e dando-lhes explicações sobre a morte e as suas circunstâncias, envolvimentos e rituais, bem como da sua inevitabilidade, irreversibilidade e causalidade. Senti o apelo de estender às outras crianças estas explicações e propus à editora Booksmile um livro sobre este tema difícil, que se chamaria “A morte explicada aos mais novos”, na sequência do meu anterior livro “A sexualidade explicada aos mais novos”, sobre outro assunto embaraçoso.

Neste livro “A morte explicada aos mais novos” conto a história de Maria, de 9 anos, a quem morre a avó materna, das suas dúvidas e sentimentos, e das atitudes do seu pai, que a conforta e lhe vai dando explicações, quer da parte “física” como o destino do corpo, o caixão, o velório, o funeral, o cemitério, quer também levantando questões relativamente ao eventual destino do espírito, que as crianças habitualmente percebem que permanecerá mas não sabem “onde” e “como”. Não querendo, no texto da história, entrar nas questões filosóficas e religiosas, convidei representantes acreditados das religiões mais comuns em Portugal e também do agnosticismo/panteísmo e do ateísmo, para fazerem pequenos textos, escritos em linguagem simples, que abordassem a resposta de cada uma às grandes questões levantadas pela morte em relação ao destino da alma ou do espírito, bem como as atitudes relativas aos costumes e rituais com os cadáveres. Creio que em todas as atitudes religiosas, agnósticas ou ateias há uma preocupação de bem, de bondade e também de perpetuidade, espiritual ou de memórias e obras.

Para além da história da Maria, também incluí no livro, feita por mim próprio, uma explicação médica muito acessível da morte e da colheita de órgãos para transplantação, assim como testemunhos duma professora de pediatria relativamente à abordagem do tema com as crianças e jovens, bem como duma pediatra do desenvolvimento, duma psicóloga infantil, duma pedopsiquiatra e duma especialista em oncologia pediátrica/cuidados paliativos pediátricos, esta dando o seu testemunho nas situações em que os mais novos têm de encarar a sua própria morte ou de irmãos e primos, colegas e amigos.

O tema tem de ser abordado com uma linguagem adaptada aos mais novos e com a descrição das situações e dos conceitos adequados à mentalidade e à sensibilidade das crianças, sempre com verdade, senso, delicadeza e até ternura. Para ultrapassar esse desafio para escrever este livro, contei com “a criança que há em mim”, com os meus nove netos, e com a experiência da editora.

Os meus netos ajudaram-me muito através das respostas a um pequeno questionário que lhes fiz de cinco ou seis perguntas, a todos e a cada um individualmente, conforme as idades, na altura dos 6 aos 17 anos. Os testemunhos das crianças que constam do livro são deles, com os respectivos nomes, embora com pequenas adaptações. Também na leitura que fizeram do texto final, ajudaram-me a substituir algumas palavras e a compor algumas frases para ficarem mais adaptadas aos “mais novos”. Eles ficaram muito orgulhosos por terem colaborado e por estarem citados, com os seus nomes, no livro.

Por outro lado é muito importante a atitude de pais, educadores e familiares relativamente à abordagem duma situação de morte conforme as diferentes idades, características e desenvolvimento das crianças e jovens. É claro que tem de se ter também em conta a personalidade e sensibilidade de cada uma delas, mas como princípios gerais poderemos dizer que a verdade, embora adaptada à individualidade de cada criança, e o bom senso, devem sempre prevalecer, e que alguns costumes e “frases feitas” habituais podem ser perniciosas, como é exemplificado e explicado no livro. Há que ter atenção a certas atitudes e comportamentos das crianças, possíveis sinais de sofrimento emocional, sendo frequente os mais pequenos recearem que possam morrer também a seguir outros familiares mais próximos.

Conforme a idade poderemos distinguir: a) até aos 3 anos, as crianças devem ser afastadas do corpo morto e dos cerimoniais, devendo ser explicado, somente se perguntado, o desaparecimento da pessoa morta e a tristeza e choros dos familiares e amigos como um afastamento; b) as crianças dos 4 aos 6 anos, poderão já compreender aspectos muito básicos da morte e poderão, conforme as suas características, assistir a um ou outro cerimonial, mas não devem ver o corpo morto, ou somente em condições não impressionáveis, como o caixão coberto; c) as crianças dos 7 aos 9-10 anos, já poderão compreender os aspectos básicos da morte, como a inevitabilidade, a irreversibilidade e a sua eventual causalidade, e, conforme a sua sensibilidade, poderão assistir a alguns cerimoniais e, somente se o quiserem, ver ou tocar os corpos mortos das pessoas queridas, também podendo, conforme o seu desenvolvimento mental e emocional, acompanhar as cerimónias fúnebres e ir ao cemitério se assim o desejarem, explicando-se previamente os rituais; d) as crianças com mais de 10 anos, poderão já ser equiparadas a adultos, apenas devendo haver bom senso e respeito na transmissão de más notícias e adequação de comportamentos à sua sensibilidade e susceptibilidade individual.

Duma forma geral, até aos oito-nove anos os pais e educadores devem responder sempre com verdade às perguntas das crianças, adaptando as respostas à sua idade e desenvolvimento, mas só devem abordar o assunto se existir uma morte (ou eminência de morte) na família ou amigos chegados. As explicações devem ser sempre apropriadas à idade e desenvolvimento da criança, e as atitudes em relação a ver o corpo e à participação em cerimónias estão também condicionadas pela vontade da criança e pela sua sensibilidade. A partir dos nove-dez anos o tema pode ser assunto de conversa mesmo não existindo nenhuma morte presente ou eminente, com explicações mais aprofundadas, embora sempre tendo em conta a sensibilidade individual de cada criança. Neste tempo de pandemia, todos, adultos e crianças, se apercebem da fragilidade humana e da relatividade de valores que eram muito prezados e que estão hoje postos em causa. As dificuldades da vida, a doença, a morte, estão muito mais presentes nesta época, pelo que, associando o maior tempo livre e maior permanência com as crianças, pode ser uma boa ocasião para se falar sobre o assunto. E também será oportuna pois é possível que possa morrer algum familiar, amigo, ou pelo menos conhecido.

A vida é um dom, que começa e tem de acabar. É muito bonito quando as pessoas aproveitam o dom da vida, quando têm alegria, são boas e praticam o bem. A morte é um mistério. O corpo morre, os órgãos deixam de funcionar, o cadáver vai para a terra ou é cremado, mas não sabemos o que está para além da morte, onde “existimos” antes de nascer e depois de morrer. As religiões ajudam a cada um de nós solucionar este mistério e a dar-nos esperança de luz eterna. Sendo o viver e o morrer estados naturais, os adultos têm de saber encará-los como tal. Têm de saber aproveitar a vida e combater, com todos os meios e apoios possíveis, a doença e o sofrimento. Mas quando é iminente e inevitável, têm que saber lidar com a morte e aceitá-la. É fundamental que resolvam esta questão com eles próprios para poder devidamente explicar a morte aos mais novos. E este livro ajuda-nos, aos adultos nessa resolução e nessa explicação, e aos mais novos e às crianças, através da história da Maria, a compreender, prevenir ou ultrapassar o significado da morte e o desgosto que a perda de alguém querido representa.