Todos nós, por uma ou por outra razão, já experimentámos o sentimento de estar no limite, vivenciando sintomas de ansiedade ou mesmo de um ataque de pânico.

Mas, a verdade é que as crianças também podem sofrer de um ataque de pânico, ou ter um episódio de ansiedade generalizada, pelo que é fundamental estar atento aos sinais, para poder actuar da melhor forma, sem grandes alaridos ou demasiadas inquietações. Num ataque de pânico a ansiedade impera, sendo que a maior dificuldade perante este tipo de situações é a de conseguir manter a calma necessária para ter um pensamento claro e objectivo sobre o que se está a passar, de modo a ser possível actuar. Quando pensamos que esta situação está a ser vivenciada por uma criança, a complexidade aumenta exponencialmente, porque a capacidade de entendimento diminui de uma forma proporcional, sendo fundamental o papel do adulto para a sua melhor resolução. Na infância, encontramos presente uma linha muito ténue que separa o desenvolvimento normal do patológico, ou seja, passamos da ansiedade de separação, que é normal e saudável, e que se encontra presente no normal decurso da infância, para a angústia de separação, geradora de sintomas de naturezas distintas, que apresentam manifestações clínicas, que, muitas vezes, se alteram com a entrada na adolescência.

Recorrendo ao senso comum, todos nós reconhecemos as ditas “birras” como fazendo parte da infância, mas o seu prolongamento no tempo dá conta de um sinal de que algo não está bem com a criança. Assim como já ouvimos certamente dizer: “Ai… o teste correu-me mal, tive uma branca!” A “branca” não é mais do que um equivalente do ataque de pânico da idade adulta, revelando a dificuldade em manter a calma necessária perante uma situação de tensão, que exige um pensamento claro e objectivo, de modo a ser possível actuar, neste caso, dar resposta a uma situação em que é necessário agir sob alguma tensão.

Sob pressão

Do ponto de vista psíquico, as questões da ansiedade levam à transformação do afecto ansioso numa patologia distinta, que pode ser mais psíquica quando se trata da fobia, da inibição, das obsessões, ou seja, quando é o pensamento que está envolvido; afectiva, quando se trata de uma depressão; comportamental, quando a patologia se traduz na esfera motora, sob a forma de agitação e de instabilidade; e, de expressão somática, quando se traduz por perturbações mais graves que afectam os ritmos orgânicos, nomeadamente, o do sono ou o da alimentação.

Durante a infância e a adolescência é muitas vezes na escola que é dado o alerta para o aparecimento de alguns destes sintomas, uma vez que estes surgem, muitas vezes, associados a imprevistos que são vividos como desagradáveis, podendo estar directamente relacionados com situações de avaliação ou de conflito entre pares. O medo surge muitas vezes ligado a uma situação específica, relacionada com a experiência pessoal, ou como uma reacção às regras impostas pela sociedade.

No decorrer do desenvolvimento a articulação entre o ataque de pânico e a ansiedade vai sendo progressiva. Durante os primeiros anos de vida a descarga é puramente fisiológica, sendo o corpo o lugar de expressão por excelência, apresentando as descargas motoras um papel muito importante em conjunto com a chamada “angústia do estranho”, que se traduz por uma reacção negativa à ausência da figura cuidadora e ao aparecimento de outras figuras. Quanto mais pequena é a criança, maior é a incidência somática, porque, perante uma situação em que se sente aterrorizada, em pânico, não consegue raciocinar.

Em busca de tratamento

O tratamento mais eficaz para os ataques de pânico e para a ansiedade generalizada é a Psicoterapia, nas suas diferentes vertentes de acompanhamento a crianças e a adolescentes. No entanto, em alguns casos também é utilizada a terapêutica farmacológica, dada a sua maior eficácia na rápida remoção dos sintomas. Contudo, não deve ser descurada a função pedagógica junto dos pais, educadores ou das figuras emocionalmente significativas, no sentido de possibilitar uma compreensão e uma (re) educação do agir aquando do aparecimento dos primeiros sintomas. No caso das crianças e dos adolescentes, a realização de uma Psicoterapia irá permitir a descoberta das causas inerentes à situação e uma resolução da mesma, a médio e a longo prazo. O principal objectivo terapêutico é a (re)estruturação dos mecanismos de defesa, permitindo que a criança ou o adolescente tome consciência dos seus conflitos internos, permitindo- lhe desenvolver novas estratégias para lidar melhor com as situações de conflito internas que suscitam o bloqueio na realidade externa. É a capacidade de antecipar os conflitos internos, que vai possibilitar a construção de estratégias mais eficazes para o combate ao pânico e à ansiedade, permitindo que se mantenha o melhor equilíbrio emocional.

Quando esta antecipação é conseguida, o equilíbrio psíquico é mantido, através da estruturação do sistema psíquico, o que não significa que a criança ou o adolescente não volte a poder ter um ataque de pânico, ou a ter um episódio de ansiedade. O que se verifica, após a intervenção psicoterapêutica, é a existência de uma maior capacidade em lidar com a situação, accionando um conjunto de mecanismos que permite lidar com a situação de uma forma mais equilibrada e menos desestabilizadora das rotinas escolares e/ /ou familiares.

A importância da família

Atendendo à diversidade sintomática que os ataques de pânico e a ansiedade apresentam durante a infância e a adolescência, estes podem em algumas situações induzir ao erro de diagnóstico, pelo que é essencial a promoção de acções de sensibilização e de esclarecimento junto de toda a população em geral, mas, principalmente, junto dos técnicos que trabalham com crianças e jovens e que podem desempenhar uma função formativa de carácter preventivo.

No passado dominavam as lógicas restritivas, tudo era de difícil acesso, funcionando a família como um veículo de transmissão do saber, que passava de geração em geração. As famílias de hoje são consideravelmente mais reduzidas, perdeu- se o conceito de família alargada, que servia não só como uma rede de apoio, mas também, como um lugar para explorar e espelhar formas de proceder, funcionando como um suporte transformador da ansiedade normal, sentida nos mais diversos contextos da vida. No presente constitui-se como fundamental (re)criar esta função nas famílias e na sociedade, para que as crianças e os adolescentes possam crescer com as ansiedades normais e sem pânicos e ansiedades generalizadas que os impeçam de vir a ser adultos saudáveis no amanhã.

Texto da autoria de Isabel Gonzalez Duarte, doutorada em psicologia clínica, especialista em psicoterapia psicanalítica e em psicologia clínica e da saúde